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OS ERROS
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Ao carregar os filhos no carro, os pais cometem deslizes simples que podem virar tragédias. Da criança solta no banco à cadeirinha mal instalada, aqui estão três situações perigosas e, infelizmente, corriqueiras no trânsito.




Cadeirinha mal instalada



Criança solta no banco



No colo de um adulto

 

 

 

 

 

 

 

 

Nove entre dez brasileiros não sabem levar uma criança com segurança no carro. Você é um deles?

especial

Por André Ciasca

Que tal uma pesquisa rápida para começar a reportagem? Vamos lá: quando o assunto é levar crianças no carro, você:
1) Obedece às normas de segurança.
2) Não obedece às normas de segurança.

"Apenas uma cadeira nacional, a Free Way, da Lenox, passou pelos testes exigidos e conseguiu a certificação da ABNT"

Muito bem! Temos certeza de que você marcou a opção 1. Na verdade, todo mundo diz que transporta a garotada longe dos perigos. E quase todo mundo está errado – o que provavelmente inclui você. Segundo levantamentos recentes, 90% dos brasileiros desconhecem ou aplicam de maneira equivocada as tais normas. Poucos sabem como utilizar corretamente itens ou produtos de segurança infantil. Menos ainda conseguem distinguir uma cadeirinha de qualidade de outra ineficaz. Não se trata de uma discussão acessória. A cada ano, 1200 crianças até 14 anos morrem em acidentes de trânsito no Brasil. Na estimativa do Ministério da Saúde, nove entre cada dez mortes poderiam ter sido evitadas. A mesma conta vale para os 5000 meninos e meninas que ficaram com seqüelas permanentes após os acidentes.

Para ilustrar a situação, eis um caso com final feliz, mas que poderia ter sido trágico. No final de 1998, Sylvia Paula Oliveira e o marido estavam levando a filha Ana Luíza, então com 11 meses, de Belo Horizonte para São Paulo. Como é comum nesses casos, a mãe preferiu viajar no banco de trás, junto com o bebê, que estava bem preso na cadeirinha. Por um momento, Sylvia pensou em pegar a filha no colo. “Era uma viagem longa e achei que ela iria ficar mais confortável”, diz Sylvia, que desistiu da idéia. Quilômetros depois, o carro derrapou ao fazer uma curva e rolou por um barranco de 40 metros de altura, capotando três vezes. Ana Luíza sofreu apenas um arranhão na testa, nada mais. “Se ela estivesse no colo, provavelmente eu a esmagaria com o meu corpo durante o acidente”, diz Sylvia. “Minha filha poderia ter ficado inválida se não estivesse na cadeirinha.”

Estima-se que sejam vendidas de 10000 a 15000 unidades do produto por ano no país, principalmente nos grandes centros. “As pessoas reconhecem cada vez mais a importância da cadeira. O problema é que elas não têm como distinguir qual modelo é eficiente ou não”, afirma Luciana O’Reilly, coordenadora da Criança Segura Safe Kids Brasil, organização não-governamental com sede nos Estados Unidos e que atua em 30 países. Se você também não sabe, não adianta perguntar para as autoridades. Não há uma norma obrigatória regulamentando os requisitos mínimos de segurança numa cadeirinha. Mesmo os fabricantes não chegam a um acordo sobre o tema. Ao lado de produtos importados e de tradicionais empresas brasileiras, existem modelos com os mais heterodoxos sistemas de avaliação, como o da Safe Kid (empresa que não tem ligação com a ONG), uma espécie de coleira corporal cujo dono testou a invenção nas próprias filhas. “Metade dos produtos nacionais nem deveria estar no mercado”, afirma Carlos Alberto Halas, gerente de desenvolvimento da Lenox, que tem três modelos de cadeirinhas. “São um engodo, uma enganação.”

Halas não fala apenas como concorrente. Durante cinco anos, ele foi o presidente da comissão que reuniu fabricantes, Instituto Nacional de Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial (InMetro), Procon, Volkswagen e GM. No final de 1999, a partir dos trabalhos do grupo, foi criada a norma NBR 14400, da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), que determina os padrões para produzir e certificar os chamados “dispositivos de retenção infantil”. A norma tem padrão internacional – é praticamente uma tradução da norma européia, a mais exigente do mundo –, mas não é obrigatória. A resolução 15/98 do Conselho Nacional de Trânsito (Contran), que regulamenta o transporte de crianças no carro, diz apenas que menores de 10 anos devem andar no banco traseiro utilizando cinto de segurança ou sistema de retenção equivalente. “Como a resolução não especifica o sistema e é anterior à norma da ABNT, pode-se colocar no mercado produtos sem fazer qualquer tipo de teste”, diz Mariano Bacelar, diretor técnico do Instituto de Qualidade do Brinquedo (IQB), braço do InMetro responsável pela certificação de produtos infantis.

Apenas uma cadeira nacional, a Free Way, da Lenox, passou pelos testes exigidos e conseguiu a certificação da ABNT. A empresa faz outros dois modelos que ainda aguardam os testes, mas mesmo assim estão no mercado. “Temos certeza de que eles não apresentam problemas”, diz Halas. Nessa questão, é cada um com sua política de vendas. A Brinquedos Bandeirante, por exemplo, não certificou suas cadeiras, apesar de participar da comissão de normatização. “Elas foram montadas de acordo com a norma”, afirma José Maria Carlovich, encarregado de desenvolvimento de produtos da empresa. Na Hércules, a empresa decidiu interromper a produção até conseguir chegar aos índices da NBR 14400. É uma atitude corajosa, mas, como diz Celso Braga, gerente industrial da Hércules, precisa de uma contrapartida de outro interessado na questão: o consumidor. “Os pais ainda não têm consciência da importância de adotar um padrão obrigatório de segurança nas cadeirinhas”, afirma Braga.

Vale voltar rapidamente à pergunta inicial: você realmente obedece às normas para transportar crianças? Mas, feito isso, as pessoas sabem usar o produto? E só a cadeirinha resolve? Mais uma vez, entramos numa área nebulosa para os consumidores

 

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